Volume
Rádio Offline
Redes
Sociais
MUSICAIS à brasileira
15/11/2018 23:15 em Música

Criadores teatrais imprimem DNA nacional em produções que abraçam esse gênero artístico

Tradição brasileira ou modismo importado? O fato é que muito antes de superproduções da Broadway como Os Miseráveis e O Fantasma da Ópera chegarem por aqui, no ano 2000, o teatro musical já era popular no Brasil. Entre os séculos 19 e 20, o Teatro de Revista, gênero musicado que se valia de sátiras do cotidiano, foi o primeiro a desenhar essa vocação do tablado brasileiro. Já nos anos 1960, o teatro musical ganhou um tom político e contestador, a exemplo de Arena conta Zumbi, de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, com música de Edu Lobo. Atualmente, diferentes abordagens, temas e personagens imprimem novidades ao gênero que está, cada vez mais, afinado com a cultura do país.

Diretora do musical Elza, em cartaz no Sesc Pinheiros em São Paulo, Duda Maia percebe esse movimento. “Ultimamente, vários atores-produtores têm necessidade de criar seus trabalhos. São atores-cantores que também vieram de musicais.

Acho que há uns anos víamos muito esses nomes brasileiros nos pequenos musicais e, à medida que eles foram ganhando simpatia e receptividade, isso foi se espalhando. Já o musical vindo do exterior também criou espaço para novas produções”, observa. 

Além disso, outra motivação levou à criação de espetáculos como Sassaricando – E o Rio Inventou a Marchinha (2007) ou Gonzagão – A Lenda (2013), cuja direção de movimento também é de Duda Maia. “Há a necessidade de um lugar de trabalho autoral. Consequentemente, surgem daí trabalhos que são mais nossos, mais brasileiros, com a nossa digital. Mesmo que não seja uma homenagem a um artista daqui, mas que tenha uma digital nossa. Brasileiro no sentido mais amplo, contemporâneo, e não no sentido regional. Um brasileiro de nome e sobrenome”, acrescenta Maia.

Para o músico, ator, dramaturgo e compositor Vinícius Calderoni, autor de Elza, o gênero musical é propício para que se cantem as mitologias fundadoras de um país, suas narrativas marcantes e personagens centrais, algo que a Broadway já faz de forma consolidada. “É muito importante que a gente se aproprie das nossas histórias. Isso vai fortalecendo a identidade do país e formando um tipo de público que pode se reconhecer ali, e estar mais próximo da sua própria experiência. Vejo isso com entusiasmo e espero que seja uma tendência que venha para ficar”, conta.

Musicais que já estiveram em cartaz

O BEIJO NO ASFALTO

Texto de Nelson Rodrigues, com direção geral de João Fonseca, O Beijo no Asfalto tem trilha original de Claudio Lins e direção musical de Délia Fischer. No palco, a história se passa nas ruas do Rio de Janeiro da década de 1960, onde um homem perde o equilíbrio e cai na frente de uma lotação. A primeira pessoa a socorrê-lo atende o último desejo do homem atropelado: um beijo.

SUASSUNA - O AUTO DO REINO DO SOL

Com texto de Braulio Tavares, canções de Chico César e encenação de Luís Carlos Vasconcellos, o musical da companhia Barca dos Corações Partidos faz uma homenagem a Ariano Suassuna (1927-2014). No palco, o universo de temas e personagens que habitam a obra do escritor paraibano – a valorização da cultura nacional e a mescla da cultura popular e erudita.

CANÇÃO DOS DIREITOS DAS CRIANÇAS

Baseado em obra de Toquinho, Canção dos Direitos da Criança, da companhia Le Plat du Jour, passa-se em meio às engrenagens e chaminés da Revolução Industrial. Nesse mundo sombrio, regido pelas máquinas, está o castelo da Rainha Má, onde as crianças, chamadas de “coisinhas”, são obrigadas a trabalhar. Certo dia, por não aguentarem mais os maus-tratos, as crianças se unem para bolar um plano de fuga.

GARRINCHA, de Robert Wilson

Espetáculo teatral inédito, criado pelo diretor norte-americano Robert Wilson a partir da trajetória do jogador Garrincha. Campeão das Copas do Mundo de 1952 e1962, o jogador tem a sua história encenada por 16 atores e um sexteto musical, todos brasileiros. No palco, uma dramaturgia pautada na música executada ao vivo e que se baseia no desenho de ritmo, cenário e luz de Robert Wilson para investigar quem foi esse ídolo nacional.

Enredos, personagens e canções de autores brasileiros em destaque

De um lado, crianças lutam por seus direitos num cenário de engrenagens e chaminés da Revolução Industrial. Do outro, músicos, bailarinas e palhaços distribuem sorrisos e contam causos no sertão paraibano. Mesmo com enredos e épocas distintas, tanto Canção dos Direitos das Crianças quanto Suassuna – O Auto do Reino do Sol abraçam a linguagem do espetáculo musical para contar uma história e encantar espectadores. Exemplos de produções premiadas e nas quais temas, canções e personagens da cultura brasileira indicam novos caminhos do teatro musical nacional.

Neste mês, é a vez de Elza, no Sesc Pinheiros em São Paulo. No palco, uma banda composta somente por mulheres e sete atrizes compartilham o palco. Juntas e individualmente, cada uma delas é Elza Soares. A menina com a lata d’água na cabeça, que se casou aos 12 anos e foi revelada ao mundo no programa de calouros do maestro Ary Barroso. A garota apaixonada por Mané Garrincha, que deu a volta ao mundo e cantou para multidões. A mulher que passou por momentos de amor, dor e violência.

 “O musical era sobre ela e para ela, então Elza sempre esteve onipresente. Absorvi umas 30 horas de entrevistas, arquivos, tudo que encontrei. Ela não interferiu diretamente, não aprovou ou reprovou. Foi super-respeitosa e paciente dando espaço para essa investigação”, conta Vinícius Calderoni, que assina o roteiro do espetáculo, a convite da produtora Andrea Alves. Para Duda Maia, o musical é ainda uma homenagem às mulheres brasileiras. “Difícil não ser um espetáculo que abrisse essas janelas para a vida de outras mulheres tão importantes e que também pudesse dialogar com aquelas que estão assistindo ao espetáculo. Fico feliz em fazer essa homenagem a Elza e a mulher brasileira.”, acrescenta.

Fonte: Revista E (SESC SP) / Foto: Julian Mommert / Divulgação

 

COMENTÁRIOS
Comentário enviado com sucesso!